Claudete
Abril/2006

Após um casamento de onze anos fracassado, mudei radicalmente minha vida, larguei a cidade grande, uma carreira profissional, faculdade, uma vida aparentemente feliz e bem alicerçada.

Aos 39 anos não havia conhecido a verdadeira felicidade: a de encontrar meus dois verdadeiros amores: um deles, o meu encontro verdadeiro com Deus, experiência que mudaria minha vida e com ela ganharia um presente divino chamado Marcelo. Marcelo é um homem moreno, alto, porte atlético, cheio de vida aos seus 32 anos, verdadeiro e idôneo e muito religioso e temente a Deus.

Conhecemos-nos na igreja, e foi amor à primeira vista. Marcelo havia saído há menos de seis meses de um casamento cheio de conflitos, que tentava com todas as forças consertá-lo. Após alguns dias de tê-lo visto pela primeira vez, começamos a manter contato pelo telefone e logo pessoalmente. Para meu grande espanto, logo eu que não acreditava em amor, me deparava com alguém que parecia já conhecer há longo tempo, e não demorou muito para logo estarmos apaixonados. Mas logo começaram a se apresentar as primeiras barreiras.

Marcelo começou a pedir tempo, tudo estava bem e logo ele se afastava, só me dizia que havia um preço para ficarmos juntos e talvez eu não estivesse preparada para pagar. Não deixei me abater, lutei com todas as minhas forças e com meu Deus ao meu lado, não desisti e não e me arrependo de cada minuto, às vezes ligava para ele e dizia que queria vê-lo, ele me negava, quando percebia estava ao seu lado, pronta para amá-lo. Até que um dia num passeio à tarde, o Marcelo me contou ser soropositivo, e o preço seria esse: viver com uma pessoa condenada, e cheia de problemas.

Na verdade, senti um grande alívio, pois se era esse o preço para mim era uma bagatela. Senti insegurança sim, medo que se um dia viesse a ver o meu homem a sofrer se estaria eu com força ao seu lado. Mas tenho fé e promessa de Deus que se preciso for o meu Deus atravessara essa prova comigo. Levamos uma vida normal, ele toma o coquetel duas vezes ao dia, faz controle mensalmente de exames e tomamos todas as precauções necessárias. Marcelo é para mim a parte que faltava, quando brigamos, xingo, cobro, sou mais exigente com ele do que com qualquer pessoa. Creio que preciso mais dele do que ele de mim. Estamos até pensando em ter um filho, e sei que Deus nos dará esse presente.

Sei que faço parte do grupo de risco, mas para mim o maior risco é o de não viver feliz. Ele contraiu o vírus quando jovem de um irmão mais velho, que já faleceu. Marcelo é soropositivo há mais de 9 anos. Hoje vivemos um grande amor com seus problemas e fracassos comuns, às vezes me pego cobrando se realmente somos felizes ou se é tudo ilusão, não sei, só sei que estamos fazendo um ao outro muito feliz, a AIDS para nós nunca foi um problema ou motivo para deixarmos de viver, aliás abolimos esse vírus de nossas vidas.

Marcelo está com o vírus indectável, vivemos uma vida normal, moramos no litoral, eu era administradora de empresa, funcionária de confiança, agora sou só uma secretária em um pequeno escritório quase em frente ao mar, com um pequeno salário, ele aposentado me ajuda com afazeres domésticos, estamos sempre juntos vivendo um para o outro. Às vezes, acho hilário por que a minha vida está resumida em uma pessoa que é portadora de uma doença terminal. Por isso digo a você que é portador do HIV, não deixe o vírus matar você, aprenda a viver com ele, faça um desafio com ele e principalmente tenha sempre Deus em sua vida.

E você que de alguma forma vive com alguém portador não se esqueça que ele é uma pessoa normal, cheia de vida. Quando me lancei aos braços do Marcelo, só tinha uma certeza: a de que não poderia negar esse amor para ter uma vida longa, pois ao dar as costas poderia sofrer uma fatalidade e perder a vida. Não se deixe abater por essa doença, faça dela um desafio, viva intensamente sua Vida, porque só a Deus cabe dizer quando chega o fim, mas Deus permite você viver várias vidas em uma só. Você que um dia tomou uma estrada errada ou coincidentemente chegou nela, aproveite os horizontes que há nela.

Nós dois passamos por vários problemas quando resolvemos viver juntos, a sociedade, fomos abolidos da comunhão da igreja, a ex esposa do Marcelo que o desprezou agora o quer de volta, meu ex também, fomos motivos de fofoca porque eu era uma mulher orgulhosa ou até estava sempre procurando alguém, enfim tivemos vários obstáculos mas estamos vencendo todos, e já somos vistos com outros olhos, como casal abençoado, casal perfeito só não nos atacaram com o HIV por vivemos como se ele não existisse, aí não damos espaço ao preconceito. Chego a conclusão que se você acha o HIV um grande problema, ou tem preconceito, vá se informar e ver exemplos que a vida está cheia, viva sua vida e deixe os outros viver as suas, aliás, o pior vírus é o do preconceito e do desamor.

Eu amo loucamente um portador de HIV.

Quem quiser, entre em contato comigo, enviando um e-mail para abcdaids@abcdaids.com.br. Terei enorme prazer em trocar experiências.