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Haviva
Meu nome é Haviva, tenho 22 anos, nasci e moro em São
Paulo, SP. Não sou soropositiva, mas este ano perdi alguém
muito especial para o HIV. O nome dela era Rivcka, 22 anos também.
Nos conhecemos no colégio, quando eu tinha 11 e ela 12 anos,
na sexta-série.
Até essa época,
eu não era uma pessoa muito sociável. Entrava e saía
da sala de aula geralmente sem pronunciar quaisquer palavras, a
menos que me visse forçada a tal. A Rivcka sentou perto de
mim desde o primeiro dia, porém, não conversávamos.
O jeitinho que ela deu foi de, num daqueles ensolarados dias cariocas
(dois meses depois), me acompanhar discretamente até
a minha residência, e anotar o endereço.
Como o colégio não
ficava longe de casa, eu ia e retornava a pé, normalmente
sozinha. Aquele início de tarde estava tão interessante,
a paisagem, as pessoas pela rua... que ainda dei algumas voltas,
sem me importar com aquela presença silenciosa.
O tempo passa, e não
demoro a receber uma correspondência. Era tão raro
eu receber cartas... quem poderia ter sido? O remetente era simplesmente
Ahava (amor, na língua hebraica), o que me impedia
de saber se se tratava de uma pessoa do sexo feminino ou masculino.
O fato é que gostaria
de me conhecer, e, para minha tranqüilidade e segurança,
a proposta era nos encontrarmos na hora do intervalo, no colégio
mesmo. Fiquei super curiosa. E lá fui eu. Que surpresa ao
constatar que ela não só era da minha sala como sentava
bem atrás de mim!
Conversa vai, conversa vem...
e nos sentíamos a vontade, apesar de ser nosso primeiro contato
direto. Elogiei a estrutura da carta, e ela confessou que já
havia lido todo o livro de redação, especialmente
para fazê-la. Talvez, o natural fosse eu achar estranho, mas
apenas sorri e expressei admiração.
Na hora da saída, ela
me fez novamente companhia até em casa, sendo que continuamos
conversando durante todo o percurso. Aquela despedida foi inesquecível,
marcou um novo começo em nossas vidas. Ela abriu a mochila
e me deu um chocolate, e também uma flor bem pequenininha,
que tirou do bolso da calça. Então perguntou: Quer
ser a minha namorada?, no que instintivamente eu acenei com
a cabeça que sim, ainda que sem ter muita noção
do que tudo aquilo significava.
Devo abrir um parênteses,
e observar que com quatro anos de idade sofri abuso sexual, o que
acarretou problemas físicos e psicológicos. Para completar,
o relacionamento com o meu pai sempre foi difícil. Desde
cedo desenvolvi uma certa aversão à pessoas do sexo
oposto.
E de repente eu tinha uma namorada.
Quanto mais a gente se via, se falava, mais eu notava como ela era
bonita, desenvolta, especial. Pode não ter sido amor à
primeira vista, mas com certeza foi à segunda. Éramos
totalmente inexperientes, no entanto nos envolvemos mais intimamente
no primeiro colegial.
Com 18, ela já fazia
diversos planos, inclusive de nos casarmos. Já eram 6 anos
juntas. Mas um acidente de carro fora do Brasil, limitaria nossos
sonhos. Uma terra estranha à de origem, um hospital estranho,
e uma necessária transfusão de sangue...
Pouco depois do susto, no Brasil,
aparentemente tudo voltava a ser como antes. A Rivcka sempre havia
sido uma pessoa boa, e regularmente doava sangue. E foi na primeira
doação após o acidente, que veio a bomba.
Descobrimos que a Rivcka havia contraído o vírus da
Aids, mesmo nunca tendo se relacionado com um homem, e nem sendo
usuária de drogas.
Uma situação
inimaginável, que agora se apresentava real. Claro que foi
um choque para todos. Pouco sabíamos a respeito dessa doença,
o que gerava ansiedade e medo. A primeira coisa que se deve fazer
quando se descobre a Aids, ou qualquer outra doença, é
pesquisar tanto quanto possível sobre o assunto.
Inicialmente, ela sentia medo
de um possível afastamento das pessoas, inclusive de mim.
É preciso dar apoio à vítima do HIV, porque
ela já enfrenta um momento muito difícil, e seu psicológico
encontra-se fragilizado. Todos gostamos de nos sentir aceitos e
amados. O afastamento gera dor, sofrimento, e mina ainda mais a
resistência do organismo.
Conforme fomos estudando, a
sensação foi de maior calma e confiança.
É uma guerra, um desafio, e jamais devemos nos render. Eu
falei que sempre estaria ao seu lado, lutaríamos juntas.
Mas um novo receio surgiu. Ela questionou até que ponto minha
decisão nos faria bem, por conta do medo de me contaminar
de alguma forma.
É importante que as
pessoas se conscientizem, que não se pega Aids através
do ar, da compartilhação de objetos (livros, pratos,
assentos), alimentos, roupas. Ou seja, a Aids não se transmite
pelo contato social, e é uma tremenda ignorância pensar
diferente.
Por outro lado, muitas pessoas
também parecem ignorar o fato de que a Aids pode sim ser
transmitida num relacionamento à duas. Se uma parceira está
contaminada, há alguns cuidados que devem ser tomados. É
recomendado cobrir a área genital (ex.: através da
camisinha), para não entrar em contato direto com prováveis
secreções, ou por causa de probleminhas que podem
surgir na boca e provocar sangramentos.
Basicamente, fora isso, todo
o resto é normal (desde que não envolva algum tipo
de penetração).
Vencidas as barreiras, continuamos
a viver nossa vida. Só que a Rivcka também era um
pouco teimosa, e abusava da sua energia. Os médicos estavam
sempre alertando de que devia descansar mais, dormir mais, se alimentar
melhor. Uma pessoa com HIV pode estudar e trabalhar, mas não
deve exagerar, e principalmente dependendo do caso.
No caso da Rivcka, as coisas
foram acontecendo muito rapidamente. Com a rotina que ela estava
levando, o seu sistema imunológico ficou exposto demais.
Resultado: o HIV transformou-se em Aids. E eu tive que
aprender a lidar com convulsões, febres altas, suores noturnos.
Era horrível vê-la sofrer. Juro que se eu pudesse,
trocaria de lugar.
Para somar-se ao quadro, uma
pneumonia e falta extrema de apetite.
Nos falamos pela última
vez sexta-feira na parte da manhã. Sábado, 2 de abril
de 2005, ela descansou (faltavam apenas 15 dias para 23 anos).
Felizmente havíamos
aproveitado um intervalo durante aquela sua última internação,
e nos casado :)
Só que essa era a pior
coisa que poderia acontecer na minha vida. Perdê-la, pelo
menos fisicamente.
Não me suicidei por
pouco, e seis meses depois, estou em tratamento psicológico
para tentar amenizar o impacto da perda. Não tenho 100% de
certeza se ela pode me ouvir, mas eu converso sempre, e a sinto
próxima em qualquer lugar.
Contei (resumidamente) a minha
experiência, porque ela é um pouco diferente da maioria.
Geralmente, a Aids é contraída sexualmente ou por
compartilhação de seringas, sendo que nesse caso foi
por transfusão de sangue. Claro que hoje em dia, mais do
que nunca, a probabilidade é bem baixa de acontecer, e portanto
não se deve abrir mão da doação de sangue
nem de sua recepção, o que com certeza pode salvar
vidas. Também é uma homenagem que deixo à Rivcka,
uma mulher corajosa, persistente, e guerreira.
Eu desejo à todas as
pessoas que convivem com o HIV, direta ou indiretamente, que consigam
ser fortes o bastante para enfrentá-lo até o fim.
Todos somos mortais. Mas se uma pessoa falece lutando contra uma
doença, em hipótese alguma ela foi vencida por esta.
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