Loira-RN

Tenho 26 anos, podem me chamar de Loira-RN, e convivo com esta realidade há um ano.
De repente comecei a ficar resfriada com muita frequencia, fiz um montão de exames tentando achar uma possível anemia e nada, nos resultados só apareciam alterações no fígado.
Então em novembro de 2004, algumas alergias que eu tinha na pele se agravaram, de maneira que nenhum remédio resolvia.
Foi quando procurei uma dermatologista amiga e ela me passou uma bateria de exames, inclusive o teste de HIV, pra minha futura suspresa ela já tinha trabalhado num ambulatório com pacientes soropositivos com alergias semelhantes às minhas.
Pois bem, fiz todos os exames e na hora de pegar os resultados o primeiro susto, todos estavam prontos, menos o dito cujo, tiveram que coletar o sangue de novo, o pior é que deram uma desculpa super esfarrapada e ainda por cima quando entrei na sala do laboratorio tinha uma placa enorme dizendo: "SE O SEU TESTE DE HIV DER POSITIVO VOCÊ TEM O DIREITO DE FAZER OUTRO TESTE".
Minha cabeça pirou, foram oito dias de muita angústia na espera do resultado.
Fui ao laboratório com o meu namorado na época, não tive coragem de abrir o envelope, então ele abriu e começou a chorar, eu, imediatamente desabei, chorava e soluçava como se tivesse perdido um ente querido, inconscientemente, eu.
O mais curioso é que essa crise só durou algumas horas, contei com o apoio de alguns amigos e do meu namorado, acho que fiquei anestesiada, inerte, esperando despertar do pesadelo.
No dia seguinte já estava no consultório de uma especialista, e sofrendo com a espera do resultado do teste do meu namorado, que para o meu imenso alívio, deu negativo.
Hoje, passado um ano, faço muitas considerações sobre tudo. Não sei quem me passou o vírus, eu sempre me considerei uma pessoa inteligente, mas fui burra o bastante por achar que comigo não iria acontecer, por confiar demais nos meus namorados.
Estou sozinha, mudei de estado pra tentar recomeçar num lugar onde ninguém me conhecesse, e eu enfim pudesse tentar ter uma vida normal. DETALHE: Como alguem pode sonhar com uma vida normal vivendo uma farsa, agindo como se fosse alguém 100% saudável, se omitindo, se escondendo??
Pois é, apesar de todos os meus amigos e as pessoas da minha família, que me apoiaram totalmente, acharem que eu sou muito forte, que estou enfrentando tudo sem me abater...
Não há um só dia em que eu não pense na morte, não há um só dia em que eu não me lamente por estar infectada.
Me sinto fraca diante do futuro, não tenho esperança, não enxergo nenhuma luz no fim do túnel. Só consigo pensar que estou contaminada, por erro meu, que nunca vou conseguir constituir uma família, afinal quem vai ser o louco que vai se envolver com uma soropositiva?
Tomo os remédios diariamente, embora já tenha pensado inúmeras vezes em abandonar o tratamento, afinal pra que prolongar a dor, não existe cura, e eu nem sei se vou estar viva se um dia a encontrarem.
Desculpem-me pelo pessimismo, quando comecei a escrever, pensei que pudesse relatar os fatos de forma imparcial, mas ao final, percebi que o que foi escrito não passou de um desabafo, contido, como nunca foi feito por mim nesses doze meses.
Obrigada por me ouvirem e fica o meu alerta: "O virus não está na cara de ninguém, tenham cuidado, um erro pode ser fatal." Se quiserem me escrever, o e-mail é abcdaids@abcdaids.com.br