Débora, 31 anos
Soronegativa

Eu tive três namorados sérios e alguns namoros rápidos.
Às vezes, usava camisinha, às vezes não, na maioria das vezes usava minha intuição. Sabe aquele papo de olhar e achar que a pessoa não tem AIDS ?
Em 1999, reencontrei um amigo de infância e começamos a namorar, o relacionamento durou menos de um ano, pois ele usava cocaína e minha vida se transformou em um caos.
Mesmo após o fim do namoro, continuei encontrando ele algumas vezes, mas sempre transamos de camisinha, pois eu havia parado de tomar pílulas.
Quando rompemos de vez, soube através de um amigo meu que ele andava saindo com um homossexual conhecido um tempo antes de começar a me namorar. Fiquei preocupada, mas "desencanei".
Meses depois, já em 2000, conheci uma pessoa muito legal e começamos a
namorar, essa pessoa não era portadora do vírus HIV, pois quando nos conhecemos estava se recuperando de uma hepatite e havia feito o teste. Estávamos há um ano e meio juntos e com planos de casar quando veio a notícia que o "cara" com quem meu ex namorado às vezes saía (o que não foi confirmado) estava com AIDS.
Imediatamente liguei para um amigo em comum (meu e do suposto homossexual
soropositivo) e ele negou que o outro estivesse com AIDS. Mas não fiquei bem, fui ao médico e pedi um teste.
Nos dias em que esperava o teste, foi um suplício. Liguei
para casa do meu ex, falei com a tia dele que soube que ele tinha andado
doente, o que era mentira, pois eu queria saber se o meu ex namorado estava
bem para ficar um pouco aliviada. Ela disse que ele andou internado e eu quase desmaiei, só melhorei quando ela esclareceu que o motivo não era
nenhuma doença e sim, que ele havia tentado desintoxicação em uma clinica
para dependentes.
Mesmo assim, comecei a pensar nas vezes em que transei sem camisinha com outros namorados , pensava na minha família, na minha vida
profissional e que eu podia ter infectado meu namorado. E meu namorado em
vez de me arrasar me apoiou em tudo, e disse que mesmo que eu estivesse doente e ele não, ficaria comigo, foi companheirão.
Nesses quase vinte dias entre boato, médico, exame, eu vivi o inferno.
Minha avó foi internada, eu estava começando em emprego novo, terminando o período da faculdade - estou fazendo minha segunda faculdade - copa do mundo, enfim, e eu tendo que conviver com isso, além de mim e meu namorado, só minha irmã e meu cunhado sabiam de tudo. Nesses vinte dias, acessei a net todos os dias para saber mais sobre a doença, para ler depoimentos e tomei uma decisãoindependente do resultado : essa causa é minha. Chega de dizer que não tenhotempo para serviços que auxiliem os outros, porque tempo a gente sempre arruma. Decidi que queria ajudar no combate a essa doença e decidi começar pelos meus alunos. Não com campanhas com cartazes, mas falando mais sobre a doença, enfim educando. Cheguei a pensar em um nome para o nosso grupo que seria "Prevenção: tô dentro, preconceito, tô fora".
Bem, o resultado saiu hoje, meu namorado pegou para mim por fax,
engraçado, na hora em que ele estava recebendo o fax, eu liguei para saber se já haviam enviado, pois não tive coragem de ir buscar. Ele leu o resultado não reagente e chorou, depois de 20 dias "segurando a onda", ele chorou.

Eu aprendi que o amor ultrapassa barreiras, aprendi também que
o meu maior medo não era morrer e sim, do preconceito, aprendi a não reclamar tanto da vida e de coisas mesquinhas do dia-a-dia. Essa experiência me fez uma pessoa melhor.
Quero contribuir, começarei pela campanha junto a meus alunos e depois nas escolas da comunidade. Procurarei ler mais e tentar contribuir não só na prevenção como no fim do preconceito e quem sabe mais
tarde poderei ajudar aos portadores de alguma forma. Sou soronegativa sim,
mas a responsabilidade também é minha no combate e na solidariedade