Jorge Luis - 42 ANOS
 
Uma das maiores tristezas da minha vida, deu-se logo após a virada do ano, precisamente no dia 03/01/08 (quinta-feira). Com 42 anos, casado pela 2ª vez há 5 anos, vivendo o melhor momento de minha vida; após muito atropelos na vida, finalmente estava acreditando que a felicidade havia batido na minha porta, havia encontrado alguém que realmente se importava comigo. Próximo do Natal, minha esposa há algum tempo sentia muitas dores estomacais e enjôos. Como já tinha históricos de gastrite, acreditávamos que fosse mais uma crise, e na consulta médica no dia 26/12/07 (quarta-feira), a médica pediu o exame de gravidez. No mesmo dia recebemos a notícia de um bêbe a caminho, foi a maior alegria de nossas vidas, embora nesses 5 anos de convivência, fosse um projeto para o futuro. Na ida à ginecologia, para iniciar o pré-natal, a médica pediu todos os exames de praxe, inclusive o anti-hiv. Logo após a coleta, no mesmo dia, ligaram-me do hospital, para que minha esposa retornasse ao laboratório para nova coleta, alegando que o material não havia sido suficiente.
 
Bem, eu estranhei a alegação, mas retornamos ao laboratório no dia seguinte. Ao chegar, a auxiliar de enfermagem, a mesma que havia colhido o sangue, abordou-me na porta, questionando-me se eu não queria colher sangue também...Eu perguntei: Pra quê? Não é ela que está grávida? Por que ela queria coletar meu sangue? Bem, após o material ser colhido, perguntei-lhe quando ficaria pronto. A mesma disse que só após o ano-novo.
 
Passou o feriado, foram só festas, planos, estávamos super-felizes, comemorávamos com nossos amigos o nosso bêbe que estava por vir. No dia 03/01/08, quando fomos ao laboratório para pegar os exames de minha esposa, veio a grande decepção de nossas vidas, a atendente nos disse que os exames foram encaminhados à médica que havia solicitado os exames...estranhei e logo passei a discutir com a atendente...se os exames eram meus (quer dizer, de minha esposa) por que não podia me entregar? Quando fomos ao ambulatório ginecológico, a médica não estava, mas seu substituto poderia nos atender...até aí, nada de mais...foi quando ao entrar no consultório, o médico pediu para a assistente dele sair. Começou a enrolar, enrolar, sobre alguns exames que ela tinha que fazer, parecia muito nervoso, finalmente, ele começou a dizer que havia dado um problema num desses exames, afirmou que haviam detectado que ela era HIV POSITIVA.
 
Comecei a passar mal, minha pressão subiu, a minha cabeça quase explodiu de quente, parecia que estava enfartando naquele momento....o médico nos deixou a sós, ficamos perplexos e calados por uns minutos, não sabíamos exatamente o que falar. Minha esposa nem parecia entender a gravidade da notícia, ela ficou muda. Um sentimento de culpa tomou conta de mim, veio-me de imediato na cabeça, contraí o vírus após a primeira separação e agora infectei a minha esposa, eu sou o responsável.
 
Por sete anos desde o divórcio, conheci muitas mulheres, e ao longo desse tempo, tive três ou quatro relacionamentos, das quais não usei preservativo, só pedia a elas que tomassem remédio para não engravidar. Estava no grupo de risco e não sabia, ou acreditava que isso só acontecia com os outros. Teria algum significado a vinda de uma vida (nosso bêbe) nesse momento? Seria para substituir a nossa? O médico tentou nos consolar, alegando que se ela tomasse os medicamentos, a chance do bebê nascer sem o vírus seria de 98%, e que teríamos uma vida quase normal, com limitações é claro, afinal ela é soropositiva, não aidética. Ao sairmos do consultório calados, minha vida passava pela minha frente num piscar de olhos, voltamos calados pra casa e assim ficamos por toda a noite. Pensei em jogar o carro num poste de tanta tristeza, a minha vida e tudo aquilo que sonhávamos tinha chegado ao fim. Ao mesmo tempo eu tinha que ser forte e tentar passar tranqüilidade pra ela. Tentei passar força, jurava que de agora em diante, seriamos só um, não desgrudaríamos pra nada, até que a morte nos separasse.
 
Chorei por muitas noites no silêncio, sem que ela visse, não queria passar tristeza naquele momento. Foram dias e noites de agonia e de muita depressão até irmos a um CRT DST/AIDS para começarmos logo o tratamento. A minha angústia era de não poder desabafar com ninguém da nossa família, nem da minha e nem da dela, um amigo sequer. Sofria em silêncio a espera de um consolo amigo. Tinha vontade de me abrir com um desconhecido, talvez assim, sem vínculo de amizade eu teria mais liberdade pra falar.
 
Passamos dias nesse dilema até a 1ª consulta num CRT DST/AIDS. De cara, a Psicóloga pediu pra gente o teste rápido, e qual foi a minha surpresa, quando o meu resultado deu negativo, infelizmente o resultado dela confirmou, ela está mesmo infectada. Choramos muito abraçados. A Psicóloga advertiu-me que o meu teste negativo poderia estar “mascarado” devido a baixa carga viral, eu tinha que fazê-lo outras vezes. Não conseguia entender o porquê de tudo isso. Também não tenho motivos para acreditar que minha esposa teria contraido o vírus, como dizem, em alguma “pulada de cerca”. Somos muitos felizes e só posso acreditar, caso eu não seja o transmissor, que ela tenha contraído a doença antes de nos conhecermos, pois eu confio plenamente na sua honestidade.
 
Começaram as idas e vindas no CRT DST/AIDS da cidade, a cada dia que íamos lá, era uma tortura pra mim, imaginar o olhar discriminatório das pessoas, observava os pacientes totalmente debilitados, alguns quase em estado terminal aguardando a sua vez e me perguntava: quando será que ela vai começar a sentir essas complicações? Será que algum conhecido vai nos ver por aqui? Parecia que estava estampado na nossa testa, somos HIV POSITIVO!!!Querendo ou não, eu mesmo estava cheio de preconceito da doença. Nesses casos o preconceito é o maior aliado da doença, a forte depressão se agrava muito mais do que a própria doença, pergunto-me se seria mais fácil enfrentar a sociedade, sem o medo de esconder a doença?
 
Logo após, veio a consulta na Ginecologista-Obstétrica, um grande alívio, a médica que atende as grávidas soropositivas do CRT informou que as estatísticas dão prova que o soropositivo tomando os medicamentos têm apenas 1% de chance de passar o vírus ao bêbe. Essa notícia deu-nos força pra continuarmos a luta pela sobrevivência. O resultado do CD4 da minha esposa foi baixíssimo, em torno de 153, mas ela está assintomática, só precisou iniciar a medicação logo, e graças a DEUS até hoje não teve tantos efeitos colaterais. Passados 2 meses e meio da trágica notícia, estamos mais conscientes e seguros do que teremos pela frente.
 
Resolvi contar para meu irmão mais próximo a notícia para desabafar e repatir a dor, enquanto ela contou depois à sua irmã e sua mãe, que depois de muita tristeza pôde nos ajudar. Meu irmão prometeu manter segredo. Como a Psicóloga disse, às vezes muita gente sabendo até atrapalha. Hoje minha esposa está no 4º mês de gestação, fizemos a ultra-som e pra nossa felicidade o bebê está com saúde, mexendo muito, vêm aí uma menina que já a chamamos de VITÓRIA, pois ela virá ao mundo certamente como uma vitoriosa, assim como sua mãe que vencerá essa batalha.
 
Houve certos momentos de muitas preocupações, em que ela passava muito mal, sofrendo com constantes vômitos e enjôos, teve dias em que ela não conseguia ingerir nada, pois vomitava tudo, parecia que ela estava prestes a morrer, eu entrava em pânico, mas segurava-a pelos meus braços e a carregava pelo banheiro, limpava tudo e dizia, vai passar.
 
No silêncio da noite, quando ela adormecia, eu exausto caía em prantos e pedia a DEUS que a mantivesse bem, eu não conseguiria vê-la passando por um estado terminal. Semana passada fui ao CRT refazer o teste, o ELISA. Conversei com minha esposa para que meu enteado de 12 anos também fizesse o exame, apenas por exame de consciência, pois o pai dele (que já faleceu, segundo a família de meningite) poderia ter sido o transmissor, ela relutou mas aceitou.
 
Espero em DEUS que o menino não tenha o vírus, e que eu também não tenha sido infectado para que eu possa estar sempre presente em todos os momentos, não agüentaria vê-la sofrer pelo filho, seria demais pra ela, que não merece, mas se for a vontade de DEUS de que também esteja infectado, que possemos juntos continuar o tratamento como se fosse um só. Esperamos pelo nascimento da nossa filha que está por vir e seremos felizes por muito tempo. Ao ler os depoimentos aqui, fortaleço-me ao saber que há pessoas lutando contra a doença e vivendo normalmente, pois existem pessoas como nós passando pelo mesmos problemas, sabendo que há milhares de pessoas infectadas e sendo infectadas a cada dia. Se você não tem o vírus, procure levar aos seus familiares, amigos e conhecidos um pouco das experiências aqui relatadas, a necessidade de buscar o conhecimento mais amplo da doença e procurar ajudar a quem precisa. Se você tem algum familiar ou conhecido infectado, entenda que a pessoa pode ter apenas o vírus e que pode viver por muitos anos normalmente, ainda há esperança de cura num futuro próximo...sejamos firmes e confiantes.

Não tenho nenhuma revolta no coração pelo que aconteceu, uma coisa é certa, algum propósito temos nessa vida, e se pudermos entender a grandeza de DEUS, saberemos compreender o significado das coisas.
“ Aquele que caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado com certeza irá mais longe”.
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